Florbela Espanca era uma mulher de temperamento apaixonado, era inquieta, ansiosa, insatisfeita e insaciável; era uma mulher de muito talento, "capaz de talhar um soneto como quem talha um vestido" e teve a coragem de escrever para o papel os seus estados de alma. Por isso deixou uma obra poética que surpreende e encanta.
No seu nascimento, no ano de 1894, filha de mãe solteira e pobre numa época em que as mulheres não tinham direitos, a mãe aceitou que o pai levasse a menina assim que nasceu, o que representou um enorme sofrimento para as duas. Nos primeiros tempos, a mãe ia todos os dias amamentar a filha e assim conseguia matar saudades, nas deve ter sido uma experiencia difícil tanto para a mãe como para a dona da casa.
A relação entre a mãe e o pai da Florbela durou muitos anos, de onde nasceu outra criança, sendo desta vez um rapaz dando pelo nome de Apeles, que veio a ser marinheiro aviador aos 29 anos, morrendo num terrível acidente de avioneta no rio Tejo, desaparecendo para sempre devido ao lodo do rio.
Os vários casamentos de Florbela... Aos 19 anos estava apaixonada e casou-se com Alberto Moutinho e terminou o ensino secundário. Inscreveu-se na faculdade de Lisboa e, a partir de então, o casamento acabou e divorciou-se. Passados doze anos, Florbela voltou a casar-se, com
A sua profunda e permanente insatisfação e os desgostos que sofrera na vida acabariam por conduzi-la ao suicídio. Florbela Espanca morreu a 8 de Dezembro de1930 no dia em que fazia 36 anos.
Exemplos da sua obra:
"... pouco de feminino tenho em quase todas as distracções da minha Vida. Todas as ninharias pueris em que as mulheres se comprazem ... As rendas, os bordados, a pintura, tudo isso que eu admiro e adoro em todas as mãos de mulher, não se dão bem nas minhas, apenas talhadas para folhear livros que são verdadeiramente os meus mais queridos amigos e os meus inseparáveis companheiros ..." (carta)
AMAR (poema)
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida,
É preciso cantá-la assim florida
Que se Deus nos deu voz foi p’ra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada,
Que seja a minha noite uma alvorada!
Que me saiba perder… p’ra me encontrar!
AO PAI (poema)
Ter um pai! É ter na vida
Uma luz por entre escolhos;
É ter dois olhos no mundo
Que vêem p’los nossos olhos! (…)
PARA CANTIGAS AO DESAFIO
ELA
“Ó luar que lindo és
Luar branco de Janeiro!
Não há luar como tu
Nem amor como o primeiro”
ELE
Deixa-me rir, ó Maria!
Qual é para ti o primeiro?!
Chamas o mesmo ao segundo,
Chamas o mesmo ao terceiro!
(…)
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