segunda-feira, 7 de julho de 2008

BOCAGE


Chamava-se Manuel Maria de Barbosa du Bocage. Foi um dos maiores poetas do seu tempo. Viveu no século XVIII em permanente agitação e com grade ânsia de liberdade. Fez poemas de amor, de ciúme, de desânimo, de raiva, de remorsos e de morte. Fez várias críticas à sociedade, à igreja, a amigos e inimigos. Ousou falar de assuntos que nunca antes tinham sido mencionados. A primeira pessoa a fazer uma biografia de Bocage chamava-se António Maria do Couto.

Um avô corsário por parte da mãe:
Chamava-se d’Hedois du Bocage e era um homem do mar que se tornou corsário. Foi nomeado Coronel da Armada Real Portuguesa. Em 1920, com 62 anos, instalou-se em Lisboa. Aí conheceu uma rapariga com 20 anos chamada Clara Francisca Joaquina Xavier Lustoff, filha de um rico comerciante Holandês. No dia 12 de Junho de 1920, casaram-se e a grande diferença de idades (20 anos) não causou problemas. Do casal nasceram duas filhas: Antónia Inácia Josefa e Mariana Joaquina.

Um avô homem de leis por parte do pai:

Chamava -se Luís Barbosa Soares e vivia em Setúbal desempenhava um cargo muito importante como tabelião da Câmara. Teve doze filhos, sete dos quais eram rapazes.

A A infância do poeta: Bocage aprendeu a ler em casa com a mãe aos 5 anos, aos 8 anos lia e escrevia tão bem que causava admiração. Fez a sua primeira quadra com essa idade.

Problemas familiares:

Passado algum tempo do poeta ter nascido, a família foi viver para Beja. Quando passaram pelo Alentejo receberam uma notícia muito desagradável: seu pai foi acusado por se ter apropriado de dinheiros públicos, por isso, foi preso. Foi mandado para a cadeia de Setúbal, depois para a cadeia de Limoeiro em Lisboa. Cumpriu pena de 6 anos. A mulher nunca acreditou que o homem fosse culpado. Ela estava tão triste e envergonhada que voltou para Setúbal com as crianças. Bocage perdeu a mãe aos 10 anos, ele ficou com o pai e com os irmãos. O desgosto que ele teve de perder a mãe registou-o num poema. O poema é o seguinte:

Aos dois lustros * a Morte devorante

Me roubou, terna Mãe, teu doce agrado,

Segui Marte depois, e enfim meu Fado

Dos Irmãos e do Pai me pôs distante.

* Lustros – são cinco anos de idade.

Estudos e opções:

O primeiro professor do Bocage foi o padre João Medina que lhe dava lições particulares de Latim. Eles não tinham muitas condições e por isso não podiam ir estudar os dois filhos para a Universidade de Coimbra. Pelas normas daquele tempo, tinha direito a ir o mais velho. Aos 15 anos entrou para o e Exército. A 5 Setembro foi transferido para a marinha, por isso teve de mudar- se para Lisboa.

A vida boémia em Lisboa:

Ele estudava: Geometria, Aritmética, Artilharia e Língua Francesa, Manejo de armas e desenho. E recebia 6 mil réis de ordenado por trimestre. Frequentava muitos cafés e bares sobretudo o café Nicola no Rossio. Por tradição, certa altura em que a polícia o surpreendeu no meio da rua e lhe perguntou:

«Quem és tu, de onde vens e para onde vais?» - terá respondido de imediato. «Sou o poeta Bocage

Venho do café Nicola , Vou parar ao outro mundo, Se disparas a pistola!»

A viagem para a Índia:

No dia 14 de Abril de 1786, Bocage saiu de Lisboa a bordo da nau Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena. A travessia do Oceano Atlântico foi muito atrasada por causa de grandes tempestades. Só em finais de Junho ancoraram na costa brasileira. A nau depois seguiu para a Índia com a paragem na ilha de Moçambique para reabastecer água. Há quem diga que nessa paragem Bocage escreveu um poema para a rapariga de quem gostava e que era de Setúbal e se chamava Gertrúria.

Bocage na Índia:

No dia 28 de Outubro de 1786, Bocage desembarcou em Goa. Bocage não gostou de Goa, por isso, resolveu escrever um poema:

«Das terras a pior és tu, Goa,

Tu pareces mais ermo que cidade,

Mas alojas em ti maior vaidade

Que Londres, que Paris ou que Lisboa.»

Bocage em Damão:

Em Fevereiro de 1789, foi promovido a tenente de infantaria. Nessa qualidade embarcou na fragata Santa Ana e seguiu para Damão, onde chagou no dia 6 de Abril de 1789. Passaram- se dois dias e ele fugiu!

Bocage em Macau:

Há quem diga que Bocage, depois de abandonar Damão, dirigiu – se para Macau, mas também consta que ele desembarcou em Macau porque sofreu um naufrágio na zona. Em Janeiro de 1970, o poeta tomou a nau Marquês de Angeja para regressar a Lisboa.

De novo em Lisboa:

Quando chegou a Lisboa estava tudo mudado por causa da Revolução Francesa. Nos cafés só se discutia política. Bocage escreveu um «Soneto à Liberdade». Entretanto surgiu em Lisboa um clube de poetas que se chamava «Nova Arcádia»

Bocage na Nova Arcádia:

Todos os elementos tinham de ter um pseudónimo literário e devia lembrar os nomes dos pastores das poesias clássicas. Bocage escolheu e Elmano Sadino. Elmano porque quis usar as letras do seu primeiro nome Manuel, ou seja, quis fazer um anagrama. Sadino, em honra do rio Sado que banha Setúbal. O primeiro livro que saiu foi «Rimas», em 1791.

Vida boémia e amigos extravagantes:

Manuel Maria de Bocage fazia grandes noitadas, apanhava grandes bebedeiras, participava em distúrbios, dizia e escrevia tudo o que lhe vinha à cabeça.

Bocage na prisão:

O independente Pina Manique tinha organizado uma polícia secreta que vigiava toda a cidade de Lisboa, principalmente os cafés e botequins (bares) apoiando as ideias da Revolução Francesa. Por ter poemas a ofender a Igreja e a Religião, Bocage foi condenado a ir para um convento passar dois anos para ser reeducado.

Bocage no convento:

O primeiro convento onde ele cumpriu pena foi o de S. Bento. O frade que o recebeu nesse convento escreveu a 17 de Fevereiro de 1798 o seguinte:

«Foi mandado para este mosteiro pelo Tribunal do Santo Ofício célebre poeta Manuel Maria de Bocage bem conhecido na corte pelas suas poesias e não menos pela sua instrução.»

Este registo demonstra o apareço dos frades pela pessoa de Bocage. O poeta foi muito bem tratado naquele convento. Passado algum tempo, o poeta foi transferido para o «Real Hospício da Nossa Senhora das Necessidades» que era dos padres Oratorianos. Os padres desta Ordem ocupavam–se da Educação de rapazes. O poeta saiu do convento muito mais sereno. Morreu pobre e doente, como o seu ídolo Luís de Camões, no dia 21 de Dezembro de 1805.


O poema que nós mais gostámos foi:

Título: Versos (versos que tratam os frades com o total desrespeito)

Entre um frade e entre um burro

Há tanta conformidade

Que ou o frade é pai do burro

Ou o burro é pai do frade.


Casou um bonzo da China

Com uma mulher feiticeira,

Nasceram três filhos gémeos,

Um burro, um frade e uma freira .

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